Caminho Inca, Perú

Quarentena: 30% do mundo em terapia de choque!

Quem diria, há pouco tempo atrás (alguns dias ou semanas) que hoje teríamos mais de 30% da população mundial em quarentena? Se no princípio, encorajados inclusive pelos líderes mundiais e nacionais, experienciámos a negação, desvalorizámos, relativizámos; de repente, alguns em questão de minutos, somos colocados em quarentena. Chocante. Incrível.

E de repente estamos conosco!

Muitos dos meus amigos evitaram e ainda evitam ao máximo estar sozinhos nas suas casas. O pânico de ficar sozinho em casa não é a solidão. É encontrarmos-nos. Aprender a estar sozinho é aprender a estar bem consigo próprio. A bastar-se. 

Mas se não estamos bem connosco, como poderemos estar bem sozinhos? Sem distrações, somos forçados a encarar tudo o que temos enfiado debaixo do tapete. As dores que temos sufocado com cervejas entre amigos. Aquilo que gostamos menos em nós… De repente somos encarcerados com as nossas sombras. E agora?

Agora é uma oportunidade de ouro para refletir, reavaliar e aproveitar o tempo. Refletir em quem somos e em quem não queremos ser. Refletir no que damos valor e se realmente vale assim tanto; refletirmos no valor que não damos à liberdade, aos bens e pessoas que nos cercam; refletir em quais os nossos valores de verdade quando a única pessoa que nos observa somos nós. Refletir nas coisas às quais atribuímos importância, com as quais nos irritamos tanto e tão frequentemente e que neste momento se tornam tão insignificantes…

É uma oportunidade de ouro para reavaliar se a vida que temos está alinhada com o nosso mais profundo ser e sentir. Reavaliar as nossas escolhas, reafirmar compromissos e planear uma nova vida.

Uma oportunidade de ouro para aproveitar este tempo. Limpar o que já não serve e criar algo novo. Limpar a casa, os armários e a alma. Pintar um quadro, escrever um livro, tirar aquele curso online que tanto queremos e nos sabotamos dizendo que não temos tempo, …!

Ou de repente temos de estar com alguém…

Sinceramente, não sei quem está pior: se os que não sabem estar consigo próprios ou os que já não têm desculpa para não estar em casa com as mulheres, maridos, filhos, sogros, pais, irmãos… Agora, ou vai ou racha! Os rancores, as mágoas, os desentendimentos… Todas as arestas para limar ou eliminar… Também neste caso, uma maravilhosa oportunidade de estabelecer laços, criar entendimentos, conversar simplesmente! Estar! Ou quem sabe de perceber que realmente o casal cresceu em direções opostas e é hora de aceitar isso, sem ressentimentos, e cada um seguir a sua direção com confiança de que nesse caminho, seja ele qual for, estão certamente muitas novas pessoas interessantes.

Sem audiência

Para outros que medem o seu valor pelo reconhecimento exterior, o caminho é amar-se. É olhar-se e ver-se, valorizar-se, reconhecer o seu próprio valor e mérito. Confiar que quem interessa gostará de nós, mesmo quando somos imperfeitos. Ou talvez pelas nossas imperfeições, que nos tornam únicos e engraçados. Confiar que o melhor para nós se encontra dentro de nós. Não vem da opinião, valorização ou reconhecimento de ninguém. Desenvolver esse espírito tão forte que nos faz seguir a nossa meta, com ou sem companhia, como peregrinos.

E o futuro?

E se falta a comida? E se adoeço? E se apanho o virus e fico internado sozinho num país que não falo o idioma? E se acontecesse alguma à minha família e não posso viajar? E se perco o emprego? E se não tenho dinheiro para pagar a renda? E se…? E se…?

Assim se vai instalando a ansiedade, de tal maneira que alguns amigos meus experienciam mesmo crises de pânico. Medos legítimos, medos latentes e constantes. No momento atual, muitos de nós experienciam contextos extremamente dinâmicos, com imensa pressão e zero controle. 

É tempo de perceber e aceitar que não controlamos nada a não ser os nossos pensamentos.

Costumo dizer sempre que me ligam aflitos, às vezes mesmo em pânico: “O que está mal neste exato momento em que falamos? Tens emprego? Tens teto? Tens comida? Tens dinheiro no bolso? Todos os que amas estão bem ?”. Até agora, felizmente, as respostas são sempre sim. Portanto, na maioria das vezes, estamos a sofrer em antecipação. Na maioria das vezes sofremos um futuro escuro em vez de vivermos um presente risonho.

Se escolhermos a via de pensamento em que aproveitamos todos os momentos risonhos, com a confiança de que juntos, tudo ultrapassaremos.

Neste momento, enquanto escrevo, no meu pequeno mundo, está tudo bem! E no teu?

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