O budista e a Mandala

Certo dia ouvi a Professora Lúcia Helena Galvão, da Nova Acrópole (recomendo vivamente) falar sobre a impermanência, a única certeza da vida.

Na vida nada se mantém, tudo está em constante evolução. Desde o nascimento até à morte, o próprio processo evolutivo é pautado por sucessões de transformações. Incluindo, e talvez mesmo seja o melhor exemplo, a nível celular.

Contudo, pautados pelo medo, nós seres humanos recusamos aceitar a única constante da vida: a mudança. Não toda, naturalmente. Recusamos a mudança que não controlamos, por medo.

Para melhor ilustrar a sua narrativa, a Professora exemplificou o treino dos budistas com as suas maravilhosas mandalas. Dia após dia, com extremo empenho e zelo, com todo o seu amor e paciência, os monges budistas vão peça a peça, flor por flor, desenhando a interconexão entre o Universo e todas as coisas vivas. Grão de areia a grão de areia, uma linda e maravilhosa imagem se vai revelando.

Contudo, após completa a mandala, muitas vezes a mesma é levada pela água corrente para maximizar os seus efeitos. Os budistas são também assim ensinados a praticar o desapego, respeitando a Lei da Impermanência.

Após anos a ver as minhas mandalas levadas por água abaixo, facilmente me relacionei com o exemplo. Percebi que mandala alguma, por muito que eu quisesse ou tentasse – e como tentei!!! – ficaria para sempre.

Movida pela dor de várias e tantas perdas, fez-me sentido não ter uma mandala. Assim e durante vários meses, mais de um ano, fui deixando a pouco e pouco cada peça de antigas mandalas seguir outros rios. Coisa por coisa, fui-me desfazendo e tornando minimalista. 

Ainda hoje me sinto bastante confortável com o minimalismo. Aprendi com esta filosofia que realmente preciso de pouco para ser feliz. Esta realização trouxe-me segurança. Talvez a pouca segurança que me restou: que poderia viver com menos e menos e menos…

Se nada fica, se tudo muda, se não temos controlo senão sobre nós mesmos, se a vida gosta de se rir dos nossos planos e nos mandar tornados após tornados, então para quê desafiar uma força que é maior que nós?

Até que um dia dei por mim esvaziada. Uma folha jogada ao vento. Sem nada ousar querer e pouco tendo. Finalmente, após semanas e semanas, fumando um cigarro em casa e pensando nas mandalas e nos budistas, um pensamento assomou à minha cabeça.

Os budistas sempre voltam a fazer mandalas! É certo que não se apegam à mandala. Não! A mandala é apenas o resultado final de algo muito mais importante que se adquire e jamais se perde. São os encontros que temos conosco próprios enquanto criamos as nossas mandalas que nos enriquecem, não o resultado final. O processo, saborear o processo e aprender com ele é a verdadeira riqueza.

Que feliz que fiquei com este pensamento! Que libertador que foi para mim! Voltei a sonhar, voltei a construir, com a segurança que onde esses sonhos irão parar é absolutamente irrelevante. O que importa é ousar sonhar, ousar construir, ousar cair e levantar-me mil vezes e uma mais. Ousar apaixonar-me. Pelos outros, pela vida, pelos meus projetos, por mim.

Afinal, o sonho comanda a vida! Pelo menos a minha!

Boas e muitas mandalas!

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