A irmandade da sopa, o regresso ao fogão

Não sou grande fã de cozinhar. Cozinhar só para mim invariavelmente traduz-se num desperdício dos ingredientes que por força tive de comprar em quantidade familiar, uma ementa semanal de dois pratos e um desassossego. Não raras vezes acabo em modo multitarefa, entretendo-me e tentando despachar-me das lides de Cinderela. Coloco a máquina de roupa a lavar, vou dobrando as meias, os utensílios para cozinhar lavam-se pelo meio, envio um email… Tanto assim é, que é uma sorte não queimar a comida mais vezes.

Na verdade, odeio cozinhar só para mim. Pior ainda, odeio cozinhar sozinha. 

Em boa companhia, uma cozinha pode ser a parte mais divertida de uma casa. Contam-se histórias enquanto se cortam legumes. Prova-se o vinho por entre aromas de um bom refugado. Escutam-se gargalhadas por entre o exaustor e as instruções gritadas de um extremo para o outro da cozinha.

Assim foi esta tarde cá em casa. Eu não tinha varinha mágica, nem paciência. As minhas amigas não tinham fogão. Em comum, todas tínhamos um grande desejo de comer uma boa sopa! E portanto, esta tarde fez-se sopa para quatro pessoas cá em casa e ainda ganhei uma varinha mágica emprestada! 

Esta atividade prosaica fez-me refletir na minha comunidade. Felizmente, posso dizer que mais do que amigos, somos uma comunidade. Ajudamo-nos, complementamo-nos, apoiamo-nos desde as coisas mais triviais até às noites de desforra das maldades e partidas da vida e das ralações amorosas. Sim, ralações e não exatamente relações… Mas isso daria para uma série inteira de “Chez II de Copas”.

Cozinhar em família e comer em família é das coisas que mais sinto saudades. Não sou a única. O meu leque de amigas tem até quem faça questão de cozinhar, de alimentar a prole. Há um sentido de propósito neste ato que que, afinal, de trivial tem muito pouco.

Voltando à comunidade, pertencer a uma comunidade é hoje estupidamente desvalorizado. Praticamos a exaltação do ego, de sermos independentes. Uma das grandes ilusões da nossa sociedade virtual: a independência. Como se o ser humano pudesse viver sozinho, sem depender de ninguém.

Somos seres sociais e dependemos de todos os os outros seres na nossa comunidade. O médico, o polícia, o canalizador, todos e cada um de nós é necessário a alguém todos os dias. Aceitar que somos interdependentes é um grande passo para enxergar o valor incalculável de pertencer a uma comunidade. Nestas irmandades há um valor de partilha e de entre-ajuda que nos torna tão mais fortes. Sim, somos muito mais fortes por nos sabermos seguros, sabermos que não estamos sozinhos contra a tempestade. Por outro lado, podermos ser úteis a alguém, verdadeiramente úteis, enche a alma. Os dias em comunidade não são apenas mais um. Há histórias, há momentos que se recordam com especial doçura, mesmo que amargos. Uma comunidade de verdade é uma família alargada. Uma rede de apoio, segurança e verdadeira alegria. 

A irmandade da sopa está formada. Enquanto houver quem tenha um fogão e quem tenha uma varinha mágica, tudo o resto se arranja. É só questão de combinar, o que deve ser já para a semana novamente. No entretanto, deixa-me cá provar a sopa a ver se ficou boa!

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