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Atos conscientes de bondade

Enquanto crianças, somos seres tão bondosos e repletos de “atos espontâneos de bondade”. As crianças não desviam o olhar a um mendigo, a um deficiente, à diferença. O seu coração ainda é puro e a mente ainda não está condicionada para ignorar a miséria humana.

Pelo contrário. Quando éramos crianças, questionávamos o porquê. Porque há fome? Porque aquela pessoa está na rua com frio? E quantas vezes quisemos fazer algo para mudar essa situação sem saber como. Simplesmente tínhamos aquele ímpeto de acudir, de ajudar o outro.

Os anos passam e somos ensinados a ignorar, pelo exemplo dos adultos. Até que nos tornamos nesses adultos que ignoram a miséria dos estranhos com quem se cruzam. Em dado momento nas nossas vidas nos tornámos cegos à dor alheia. Não porque não a vejamos de todo, embora muitas vezes realmente o que vemos já não atinge sequer a nossa consciência. 

Creio que nos tornamos cegos não à dor alheia, mas na verdade tapamos a verdade de que nada fazemos para mudar a realidade que nos cerca.

Tapamos não a dor do outro, mas a nossa, de hoje sermos os adultos que falam sobre mudança, mas nada mudam no seu dia a dia, com o seu contributo, com os seus pequenos atos.

Mais do que a dificuldade do outro, esforçamo-nos por esconder a nossa dificuldade de superar o nosso egoísmo, de mudar a nossa realidade porque não queremos dar nada nosso.

Mais do que a vergonha alheia, é nossa a vergonha.

E inventamos mil argumentos como “esta moeda vai ser para álcool”, simplesmente para evitar encararmo-nos. Encarar a nossa avareza. Encarar a nossa fraqueza. Nem sempre de meios, muito mais de espírito.

Quem na verdade não faz isto tantas vezes? Sejamos honestos. Eu sei que faço. Quantas vezes perdida nos meus pensamentos e na minha pressa de chegar (na verdade a lado nenhum relevante), ignoro. Estou certa de que muitas vezes vi uma pessoa em necessidade e não a olhei. Eu podia ser uma daquelas pessoas apanhadas numa experiência social e se me perguntassem se vi aquela pessoa que precisava de mim, diria que não e conscientemente realmente poderia não a ter visto. Como se fosse um poste de que me desviei e se me perguntassem não me lembraria. Autómatos.

Mas se podemos configurar uma criança a ser um adulto autómato, adormecendo o seu sentido inato de solidariedade, então podemos também de certeza despertar essa criança pura de novo. Podemos tornar-nos conscientes. Podemos esforçar-nos e fazer “atos conscientes de bondade”, até que um dia voltaremos, estou certa, a ter muitos atos “espontâneos de bondade”. Tal é a natureza do Homem.

Recentemente comecei um diário. Algo muito simples. Escrevo apenas o que realmente marcou o meu dia. Muitas vezes, de tudo o que fiz, fica uma frase. Por vezes a custo… Um pequeno nada que foi o que deu propósito, nos bons dias, ao meu dia; que me fez sentir algo positivo, nos dias menos bons.

Tenho vindo a descobrir, na verdade, que são os pequenos atos de bondade meus ou dos outros para comigo as poucas coisas realmente boas que restam de um dia produtivo em coisas impermanentes e tantas vezes insignificantes para mim enquanto pessoa.

E se todos os atos de bondade me fazem sentir bem, pergunto-me se existe de facto um ato de bondade verdadeiramente altruísta. Não creio. E não importa. Porque no final do dia, eu sinto-me melhor, mas o outro também. Alguém ficou melhor pela minha passagem na sua vida.

Obrigada ao mendigo encolhido com frio por quem acabei de passar. Eu dei-lhe uns trocos. Ele deu-me um dia com mais sentido e inspiração para incitar outros a serem conscientemente bons.

Hoje sei o que vou escrever no meu diário.

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