Do “Poder para mim e responsabilidade para os outros” para “Poder para os outros e responsabilidade para mim.”

Demasiadas pessoas buscam o poder. Muito poucas querem ter mais responsabilidade. Aqui está o grande problema: em algum momento o poder dissociou-se da responsabilidade. O poder sem responsabilidade facilmente pode tornar-se na pequena tirania de egos inflamados para mal de muita infelicidade de quem os rodeia.

As carreiras são vistas como uma escada em que há que estar sempre a “subir”. Pouco importa se amamos o que fazemos ou se amaremos as responsabilidades que o novo cargo trás. Os motivos são muito mais egoicos. 

O poder pelo status

Para muitos, poder é sinónimo de status social. Muitos querem ser reconhecidos como alguém de sucesso. No entanto, ainda ninguém me conseguiu dar uma resposta completa ao que considera sucesso para si. Quando pergunto às pessoas “O que é sucesso para ti?”, simplesmente bloqueiam. Estamos reduzidos a um conceito social genérico e estereotipado de sucesso. Sucesso virou sinónimo de fatos e cartões de visita com cargos pomposos. 

Assim condicionados, todos parecemos amar a ideia de “subir” na carreira, que é uma ideia perigosa pois implica que alguém é visto como estando abaixo. 

O poder sobre o outro

“Ai se eu mandasse!”. Tremo a ouvir esta frase… Muitos querem poder para exercê-lo sobre os outros, ignorando que o poder vem pela mão dos outros. A busca do poder para obrigar o outro a se submeter à nossa vontade é a pior de todas. Frequentemente aparece disfarçada sob um bem maior, um quase ideal, mas na verdade trata-se de impôr a visão de um sobre o coletivo. Quando alguém quer impôr a sua visão ordenando os outros, frequentemente é um dogmático. Ainda que bem intensionado, pode mesmo tornar-se um tirano porque acredita que a sua perspetiva é a única válida e correta. 

O poder por motivos económicos

As escolhas e as ambições estão constantemente norteadas por um querer ter mais. Mais dinheiro para ter mais e melhores carros e casas. Todos querem mais, acabando por ter tantos recursos físicos e tanta dor na alma…

Quanto dinheiro é o suficiente para seres feliz? Experimentem fazer esta pergunta a alguém e verão porque somos tão miseráveis. Teríamos todos de ser ricos, aparentemente, para sermos felizes… Porém todos repetimos a velha máxima de que “dinheiro não é tudo na vida”. Se não é, quanto dinheiro nos basta? Quando podemos parar e dizer: estou bem aqui! Não quero “subir” para mais lado nenhum. Tenho o que preciso e não quero sacrificar a minha vida pessoal em prol de mais dinheiro.

O preço da felicidade e a ilusão do poder

O mais engraçado é que os estudos referem que há um salário ótimo, um salário com o qual as pessoas se revelam mais felizes. Porém, mesmo com esse salário ótimo, todas têm a ambição de chegar ao seguinte patamar! E o mais interessante é mesmo que a partir de um determinado nível de riqueza, a felicidade média diminui!

Contraintuitivo? Não. Quanto mais poder, maior o sacrifício necessário. Maior a disponibilidade que se tem de ter e menos tempo sobre para a vida pessoal. Se estamos a fazer algo que não nos apaixona, apenas por mais dinheiro no final do mês, é uma tortura.

O poder sobre o outro é na verdade a responsabilidade pelo outro

As crianças hoje querem ser famosas como as Kardashian! Para quê? Para terem coisas. Para terem um falso sentido de amor, uma ilusão alimentada por likes… Tempos houve em que se aspirava a grandes ideias. As crianças queriam ser Presidente, queriam mudar o mundo.

Mas ninguém nos ensina que o poder não é gratuito! A sua companheira é a responsabilidade! Responsabilidade, do latim responso, responder, com o sufixo idade. Poder é responsabilidade, a responsabilidade de responder pelo outro com maturidade!

Poder é ter a responsabilidade, a honra, a coragem e o sacrifício de fazer pessoas felizes, colegas felizes, famílias felizes. 

O poder é solitário. Desenganem-se! Ninguém que esteja sério vai retirar nada para si do poder, porque o faz com sacrifício por algo que é maior que si! O outro. A felicidade e o bem-estar do outro. 

Quem assume uma liderança séria não quer o poder para si e a responsabilidade para os outros. Assume a responsabilidade de empoderar os outros a serem mais e melhor e atingirem todo o seu potencial. O que é a maior responsabilidade que se pode ter. Um bom líder é aquele que sabe liderar-se a si. Os outros seguem-no por isso mesmo. Esta é a metamorfose mais dura: combater os nossos demónios para estar a altura de liderar. Dar o poder e ficar apenas com a só e dura responsabilidade.

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