O tempo de cada um é diferente. Respeite o seu.

Acabo de ler um texto daqueles com que nos cruzamos tantas vezes no Facebook. O título ressoou e por acaso resolvi ler.

Gostei do artigo que falava, resumidamente, que quem gosta e quer estar connosco coloca-nos na sua agenda e que quem não nos valoriza não nos merece nem merece o nosso tempo.

“Não desperdice a sua energia com aqueles que não a valorizam, isso não torna a outra pessoa melhor ou pior, ela apenas coloca você numa realidade, no final você é quem finalmente decide quem entra e quem deixa o círculo de suas afeições.” – dizia o texto.

Tão simples, assim. Ou assim parece…

Não me valoriza

Confesso que estou agastada destes textos que visam ajudar, mas que no meu entender só contribuem para reforçar os sentimentos de falta de amor, frustração e culpa de quem ainda está numa relação difícil ou está a recuperar dela.

Em primeiro lugar porque muitos destes textos partem duma premissa em que devemos ser a prioridade número um do nosso(a) companheiro(a), sempre e em qualquer caso. A minha questão começa desde logo com a palavra prioridade. Não chega que o parceiro nos tenha como uma das pessoas que mais ama na sua vida, uma das pessoas quem sabe pelas quais até morreria. Não. Aqui a chave é ser a prioridade número um do outro.

Cada qual tem a sua maneira de estar na vida. Há pessoas que amam verdadeiramente o que fazem e dedicam-se ao seu labor com paixão. Diria até mesmo que esse trabalho é uma extensão delas próprias. Nesta medida, em que o trabalho é para alguém uma extensão de si próprio, algo que o define e o apaixona, então é uma prioridade. Tentar mudar a prioridade que o trabalho tem para alguém pode muito bem ser tentar mudar o ADN da pessoa que amamos e quem sabe até uma parte do que nos fez apaixonar por ela.

Não ser a prioridade número um sempre não é necessariamente falta de amor do outro para connosco. Mais ainda quando a prioridade número um que nos “ultrapassa na competição” são os filhos.

Por este motivo, não me parece que haja uma relação assim tão direta entre as prioridades que alguém atribui na sua vida – que podem ser por gosto ou inaptidão – ao quanto valorizam outra pessoa.

Há muitas formas de demonstrar o quanto queremos alguém, o quanto valorizamos o que essa pessoa faz por nós. Simplesmente, nem sempre essas formas vão de encontro à forma como queremos que tal seja demonstrado, a forma que nos faz sentir realmente amados. Esta dessincronia pode realmente ser muito dolorosa pois acabamos por confundir prioridades com falta de amor, por vezes afetando o amor que temos por nós próprios por não nos sentirmos amados ou dignos de ser amados…

Claro, há quem tenha uma postura egoísta, onde as suas prioridades e só as suas prioridades e valores contam. Quando assim é, quando amamos alguém que desconhece a beleza da sincronia de dois só porque essa partilha, implica cedência e investir no outro, podemos ficar “presos” numa relação tóxica.

Respeite o seu tempo

A coisa mais doce que me disseram um dia foi:

“Deixa fluir. Quando o teu coraçãozinho estiver preparado, então partes naturalmente”.

Quando algo ou alguém nos faz sentir que estamos a perder o nosso tempo com quem não nos merece só aumenta a nossa culpa. Sentimo-nos fracos, tolos, diminuídos…

Há realmente quem bata a porta nessas relações assim que percebe que aquela pessoa não é a pessoa certa. Há quem rapidamente se desencante ou olhar e ver com a razão que se enamorou duma ilusão ou de alguém com quem não é compatível.

Porém, desses, poucos há que batam a porta com a alma limpa porque quando se ama verdadeiramente alguém e se termina ainda amando, fica uma mancha no coração. Como o Raio-X de quem já teve pneumonia, fica a marca do que se viveu e foi remetido para uma gaveta bem funda do nosso ser…

Outros há que alimentam uma esperança de reconciliação. Uma esperança de que a relação acaba por se acertar e funcionar. Porque na verdade, quem ama em pleno, reconhece os defeitos do outro e em certa medida ama esses defeitos. Como quando nos rimos do mau feitio da pessoa querida ao acordar…

E depois há o luto. O luto desse amor e desses sonhos, que tem um tempo diferente para cada um de nós.

Afirmar que alguém perdeu tempo com outra pessoa é julgar o tempo que cada um de nós precisa para deixar de amar e para o seu luto. É menosprezar o tempo singular de cada um para reconhecer, aceitar, perdoar e seguir em frente.

Quem ama, não perde tempo. Quem ama, dá o seu tempo ao outro, à relação. Mas mais importante, dá o tempo que o seu coração precisa para deixar de amar e o tempo para viver o que a alma tem para viver. E aprender.

Se todos estamos nesta viagem a aprender algo, não se culpe do tempo que estas lições dolorosas lhe tomaram, nem compare com o tempo dos outros. Cada um tem as suas lições de vida e todas elas levam tempo.

Culpar-se por amar, isso sim, é perda de tempo!

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