Amor

Escapadelas, Amigos Coloridos, Relação Xanax ou Gnomos Indestrutíveis

A relação acabou e a sexualidade foi-lhe ao enterro… Mas voltou!

Acabar uma relação dá para encher não páginas, não livros, nem mesmo bibliotecas, mas a Web inteira! Não é uma fase fácil de se ultrapassar… Contudo, continuamos vivos e, como tal, há necessidades básicas que não respeitam o calendário das relações. Eis que de repente nos encontramos sozinhos com a nossa sexualidade. E agora?

Pior do que estar nesta situação é quando não se tem com quem falar um pouco mais abertamente do tema. Nem todos temos irmãos e é natural que queiramos salvaguardar a nossa intimidade, ou simplesmente sejamos tímidos.

Os finais de relação trazem também algumas inseguranças e incertezas. Como lidar com o que sentimos, com a dor ou as cicatrizes que ficaram, com a raiva e a frustração. Como iniciar um novo capítulo da nossa vida, seja com alguém ou sozinhos?

Seja como protagonista ou ombro amigo, as histórias não divergem muito. Aqui fica uma ínfima súmula das dificuldades com que nos deparamos com a sexualidade pós-relação, sem dúvida inspirado nas maravilhosas e corajosas mulheres que conheço.

Escapadelas vs Amigos Coloridos

Seja logo após a relação terminar ou mais tarde, o Satã lança tentações! Particularmente no Verão, onde andamos todos menos agasalhados, o Sol aquece…. Enfim, bate aquela vontade, e conscientemente (ou não) decidimos que já é tempo de partilhar bons momentos.

Se não temos ainda aquela pessoa especial, porque não queremos, porque ainda não apareceu ou porque não estamos preparados para arriscar novamente entregar o nosso coração, sobram duas hipóteses: uma escapadelazinha aqui e ali ou os chamados amigos coloridos. No plural, pois pode ser mais do que um(a).

Um amigo colorido é alguém sobre quem sabemos algumas coisas básicas como o nome, alguns gostos e afinidades comuns. Pode ser um conhecido de há já algum tempo. É alguém mais seguro, mais pessoal, com que se acaba por ter uma forma de relação.

Contudo, o perigo das relações „amigo colorido“ é, se forem mesmo amigos, estragar uma boa amizade. Outro grande inconveniente é desenvolver sex feelings. Não amamos a pessoa, mas acabamos confundindo um bom orgasmo com amor. Ou então, um dos dois acaba apaixonado e o que começa bem termina com uma valente dor de alma. Não só não se tem a pessoa amada, como se perde um amigo e, cereja no topo do bolo, o amigo colorido fantástico a quem ligávamos em momentos de aflição. Se estamos do outro lado da equação, podemos somar um complexo de culpa e um bom pacote de sentimentos negativos porque nos envolvemos em algo que sabíamos que podia terminar assim e agora o nosso amigo (ou amiga) está mal „por nossa culpa“ e nem sequer podemos ser aquela pessoa que o(a) vai consolar. Na verdade, talvez o melhor seja, pelo menos temporariamente, sair de fininho da vida dele(a).

Para evitar tudo isto, podemos optar pelas escapadelas com anónimos ou semi anónimos, vulgo Tinders. Em teoria, não há complicações visto que todos sabemos ao que vamos.

Contudo, com os anónimos, atenção ao efeito Coyote Ugly: acordar com alguém que jamais imaginarias um dia da tua vida acordar. Com a agravante de potencialmente haverem testemunhas, isto é, os amigos com quem estavamos na noite anterior, e uma valente dose de vergonha. Portanto, em vez da aventura servir para te levantar a auto-estima levaste mais uma lição de vida. E o pior: isto tudo por uma noite que provavelmente foi das piorzitas da tua vida porque sexo bom é um desporto a dois e ainda só foste ao primeiro treino…

Todos vimos a esta vida equipados com os três tipos de reação perante o perigo: luta, fuga ou fazer-se de morto. Diria que este é o tipo de reação de luta.

Relação Xanax

Quando uma relação é muito dolorosa, fica uma grande necessidade de colo, de carinho, de reparar a autoestima ferida. Queremos tanto virar a página… Eis que surge alguém que nos faz rir novamente, sentirmo-nos felizes e apreciados, com quem ansiamos o reencontro porque nos faz sentir que o dia foi um bom dia e o Sol brilha novamente.

Esta é uma necessidade muito forte e muito legítima. Algumas dores são tão profundas que queremos que as chagas sequem rápido, ou alternativamente, esquecermo-nos delas num cantinho qualquer das nossas almas e corações, bem longe da nossa consciência, como por magia.

Chamo a estas relações „Relações Xanax“ porque começam por ser, antes de tudo, um antidepressivo. A questão é que o problema continua lá e mais cedo ou mais tarde terá de ser encarado. Vai emergir em algum momento.

Pode ser que a relação até acabe a dar certo e que os problemas se vão resolvendo a dois. Este é o melhor cenário. Porém, é neste tipo de relações que o pior pode acontecer dando origem ao problema ao quadrado!

Podemos acabar vendo que afinal, no fundo, nunca amámos aquela pessoa que nos deu o melhor de si quando mais precisávamos e que agora está a sofrer. Mais uma medida de licor de culpa para o cocktail fantástico que já tínhamos…

Ou, para complicar ainda mais, por vezes o falecido (ou falecida) resolve ressuscitar e traz consigo todas as lembranças, as coisas que ficaram por resolver. Quando não traz a derradeira questão existencial: ainda o(a) amo, já não amo, amos os dois (as duas), quem é que eu amo?

O perigo da Relação Xanax é que pode ser uma fuga para a frente e lá na frente nos depararmos com ainda mais estilhaços.

Gnomos indestrutíveis

Por vezes é preciso dar-nos um tempo. Um tempo a nós próprios para aceitar a perda, para perdoarmos o outro e nos perdoarmos também pelos nossos erros, fazer o nosso luto, integrar o que aprendemos com aquela relação. Recolhemo-nos e refugiamo-nos. O tempo vai passando e, passado um ano, segundo uma das teses que ouvi, recebemos um gnomo indestrutível.

Quando passa muito tempo podemos estar presos na reação „fazer de morto“. Se não saímos à rua, não nos molhamos. Claro, mas também não nos bronzeamos e a vitamina D é imprescindível!

Quando muito tempo passa, torna-se difícil voltar a sacrificar, a abdicar, a dividir uma vida. Acresce que parece que desaprendemos tudo o que já sabíamos, ou assim pensamos, e acabamos ainda mais bloqueados. Parece que já não sabemos aquela dança da corte e pensamos se o nosso corpo ainda reage da mesma forma.

Santos e pecadores

Podemos oscilar na forma como vivemos a nossa sexualidade pós-relação. Depende da nossa personalidade, da fase da vida em que estamos, das nossas aspirações, das cicatrizes que carregamos connosco.

Nenhuma das diferentes abordagens ao luto de uma relação é certa ou errada, nem mesmo preferível. Nenhuma delas nos faz melhores ou piores pessoas. Tudo é relativo e tudo está certo, desde que tratemos a nós próprios e aos outros com respeito e honestidade. Temos de ter a coragem de sermos honesto connosco próprios e reconhecermos que não somos perfeitos, ninguém o é, e sabermos onde nos encontramos e porque buscamos uma forma em vez da outra.

Nem só de pão vive o homem. Se estamos bem com as interações esporádicas que temos, onde está o problema?

Se precisamos de um colo, porque não? Podemos perfeitamente receber esse colo e com esse bocadinho de energia seguirmos o nosso caminho novamente, lembrando-nos do quão somos especiais ou bonitos para alguém. Ou ficar com esse colo novo tão bom!

Se precisamos de tempo para nós, então escutemo-nos. Escutemos o nosso coração. Há tempo para voltar ao teatro do amor.

Acima de tudo, sejamos nós o nosso primeiro colo. Que sejamos tão carinhosos connosco quanto seríamos ao tratar alguém a quem queremos dar colo. Que sejamos amorosos connosco, que nos tratemos a nós como queremos que os outros nos tratem. Que namoremos connosco! Este é que o ponto fundamental. Ergamos nós a nossa felicidade e segurança em primeiro lugar, o resto seguirá.

Não se trata de santo ou pecador. Não tem nada a ver com a maneira perfeita ou certa. Simplesmente, escutem os vossos corações e… „Encontrem o que vos faz sentir bem“.


	

2 thoughts on “Escapadelas, Amigos Coloridos, Relação Xanax ou Gnomos Indestrutíveis

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