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Yoga pela manhã, amor tórrido à noite e uma caminhada entre ambos

A tirania do equilíbrio

Atualmente somos constantemente bombardeados com a moda do zen a toda a hora. Noções de equilíbrio em que há um melhor e pior para tudo, um saudável em tudo, uma noção de certo ou errado e branco e preto em tudo. Uma das buzz words é equilíbrio, algo a que devemos aspirar com o objetivo último de encontrarmos a felicidade.

Sim, também eu aspiro ao equilíbrio, porém, o que é o equilíbrio é algo que estou ainda a descobrir. Confesso que me sinto angustiada com a maioria das coisas que leio sobre o equilíbrio quando constato a distância entre as recomendações espartanas e as minhas escolhas. Digo recomendações espartanas porque são frequentemente pautadas por restrições que vão desde o comer ao sentir.

Os ciclos emocionais

Já experimentaram aqueles momentos em que existem imensas emoções? Pode ser uma competição da qual fazes parte, aquela apresentação importantíssima na empresa que estás a preparar há meses, falar para uma sala cheia de pessoas?

Nesses momentos há uma enorme adrenalina. Então quando se consegue o objetivo pretendido, parece que o movimento de rotação da Terra acelerou exponencialmente. E celebras ou lambes as feridas quando voltas a casa, mas fica uma sensação de estranheza, vazio, diria mesmo até de tristeza quando já tudo passou e voltamos a andar na velocidade normal da vida, nas rotinas diárias a que tanto estamos habituados mas que neste momento parece que nem mesmo o corpo se encontra. Se estás habituado a almoçar às 13h, vais mais tarde ou então nem comes porque não tens apetite. Se por norma adormeces à meia-noite, acabas a deitar-te à 1h e a rebolar na cama pelo menos até às 2h, se conseguires dormir.

Será então o equilíbrio não experimentar esses momentos “altos”, ou seja, não gastar uma ficha na montanha-russa, mas antes no barco que é mais suave e constante?

Será uma vida morna, em que não experimentamos euforia nem depressão, em que estamos duma forma mais consistente “bem”, a definição de vida equilibrada?

Do descontrolo à alienação

Ontem no bar um amigo meu comentava que só se encontrava quando perdia o controlo. Ao ouvir aquilo confesso que me pareceu exagerado. A primeira imagem que tive foi de um mundo repleto de pessoas embriagadas e aos solavancos e encontrões umas às outras. Penso que não foi bem essa a ideia que ele quis transmitir. A ideia era mais que temos de nos libertar das nossas cadeias e correntes, sejam físicas ou auto impostas como os nossos pensamentos e preconceitos para conseguirmos escutar a nossa criatividade. O meu amigo é artista e, portanto, a sua criatividade está muito ligada ao seu conceito de si próprio. Ser criativo, para ele, é encontrar-se.

Já os Yogis parecem ser adeptos exatamente do oposto: uma suave constância em que nada há de muito mau, mas também nada parece haver de muito bom. Há isso sim, um equilíbrio constante. Esta forma ou definição de equilíbrio soa a um “equilíbrio parado”. O truque é estar tranquilo enquanto o mundo gira à nossa volta. E à primeira impressão, faz sentido, porém também é uma forma de alienamento. É um desapego tal que acaba por se traduzir numa postura em que não me importo com nada, não me apego a nada, não aspiro a nada… Não sou nada! Afinal “o sonho comanda a vida”. Evoluímos como pessoas e mudamos a sociedade porque nos importamos, porque somos apaixonados por algo que nos move e é neste movimento que nos encontramos com os outros, que mudamos e mudamos os outros, que mudamos o mundo!

Parece então que há quem esteja bem num oceano que tanto pode ser tranquilo quanto deveras agitado, enquanto outros preferem um lago espelhado onde a água não bule e podemos contemplar o nosso rosto e a paisagem no seu reflexo.

Então, ou vivo das emoções ou me alieno completamente delas?

Equilíbrio em movimento

Penso que deve existir uma outra opção, uma outra forma de viver em equilíbrio que seja menos polarizada. Uma forma em que o saber viver é um andar que embora feito de desequilíbrios resulta num equilíbrio em movimento.

Recentemente estive num Campeonato Mundial. Durante alguns dias, tive o prazer e privilégio de partilhar as minhas refeições com os atletas, um deles meu ex-colega de secretária no Ensino Básico. Recordo-me de escutar o Presidente da Federação, outro amigo meu, falar sobre a dedicação deles, do seu compromisso diário com o seu sonho. Ali estava eu, rodeada de atletas de alta competição, os melhores do mundo, a tomar pequeno-almoço antes de irem para os jogos que são o epíteto das suas carreiras, o culminar das suas horas diárias de esforço, do somatório de todas as vezes que disseram “Não posso…” a familiares e amigos pois o seu compromisso era outro. E contudo, as refeições eram pautadas de serenidade e pequenas graças entre todos, como se fosse mais um dia comum. Não se sentia tensão, sentia-se compenetração.

Na verdade, penso mesmo que no dia em que eu tinha de fazer uma apresentação, era eu a pessoa mais tensa da sala, embora nada de tão enorme estivesse em causa para mim, nem fosse a primeira vez que me dirijo a centenas de pessoas numa sala.

Aqueles atletas estavam concentrados e compenetrados, mas nada alheados, escassas horas antes de alguns dos momentos mais altos em adrenalina das suas vidas. E ao regressar ao hotel, ganhassem ou perdessem, não se notava qualquer aquele rebound de adrenalina pautado por ansiedade, intranquilidade, um vazio que resvala em tristeza.

Naturalmente, havia emoções e muitas! Simplesmente, aqueles atletas não pareciam ter grande dificuldade em retomar a sua rotina. Podiam ir jantar fora do hotel a celebrar, desanuviar ou integrar o que tivesse acontecido mas de seguida retomavam a sua rotina, o seu movimento natural, de novo em busca dos seus sonhos e objetivos.

Os atletas parecem ter, por natureza do seu metier e sonhos, um misto entre shots de emoção e total abstinência. Ao contrário de nós, comuns mortais, são treinados para passar por esses altos e baixos com o seu próprio passo, vivendo o momento, e rapidamente regressando ao seu caminho normal. E isto torna-os verdadeiramente inspiradores aos meus olhos.

Não quero uma vida morna! Uma vida sem grandes paixões que me fazem acordar, que me fazem dar tudo, que me enchem o peito não é para mim.

O reverso da medalha é a dor, naturalmente. Uma dor que pode em certos momentos ser dilacerante e cortar-te por dentro, ou pior, estilhaçar-te e teres de te reconstruir a partir de mil pedaços.

O equilíbrio não é evitar a paixão para assim evitar a dor. É não se embriagar na paixão e saber ressuscitar da dor rapidamente. O equilíbrio é não se deixar perder nem na paixão nem na dor, é vivê-las tendo sempre a capacidade de regressar ao nosso caminho palatino. 

Equilíbrio é yoga pela manhã, amor tórrido à noite e uma caminhada entre ambos.

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